Ao longo da história, a Humanidade foi aceitando modelos do funcionamento do próprio ser humano baseados nos conceitos tecnológicos da altura. Outra constante ao longo do tempo parece ser a noção de que nunca o conhecimento esteve tão avançado, e que a estrutura conceptual existente será capaz de suportar a compreensão de todo o universo.
Hoje em dia vigora muito a ideia de que a mente, a consciência, a emoção são razoavelmente explicadas pela ciência.
Identifica-se a ciência com as ideias correntes de que tudo é feito de átomos ou energia, que por mecanismos extremos se podem inter-transformar, que a um nível muito microscópico se passam coisas bizarras (fenômenos quânticos), etc.
Sabemos que, quando Descartes conquistou ao establishment religioso da altura a liberdade de pensar sobre a qual foi construída a ciência moderna, abdicou da qualificação para pensar sobre a área da mente, consciência, ou a origem última das coisas, áreas que seriam ‘metafísicas’. Até o estudo dos animais tinha subjacente a ideia de que seriam meras máquinas fisiológicas. Esta distinção entre o que a ciência podia estudar e o que saía fora da sua alçada era subentendida e inquestionada.
No entanto, hoje em dia há uma enorme quantidade de pessoas, talvez ofuscadas pelas maravilhas tecnológicas em todas as áeas da sua vida, convencida de que a ciência entretanto já explica tudo, incluindo esta área (mente-consciência) para a qual sempre se recusou a olhar.
Infelizmente não, esta lacuna existe e é grande, embora a própria evolução – honesta e rigorosa – da ciência e a sua ambição – justíssima – de querer explicar tudo está a trazê-la à fronteira entre essas duas áreas. A física quântica não tem base para um conceito essencial de observador. A medicina não tem base para compreender de forma total o ser humano, de forma a incluir a sua componente mental-emocional-espiritual. A informática não tem base para perceber se as criações da inteligência artificial podem ou não ser consideradas ‘conscientes’. E a sociedade como um todo, quanto mais avançada tecnológicamente mais insatisafeita face ao aparente falta de significado. Vai mantendo a coesão de tudo a componente humana e afectiva, e a noção de valores, embora em risco de um qualquer autoritarismo científico poder vir a decretar o seu fim por falta de base científica.
A consciência não é algo que emerge da física materialista, mas a necessidade de falar sobre isto já emerge hoje da experimentação quântica.
Uma sensação de duvida, de amor, um cálculo matematico correto ou a noção de cor azul ou a saudade não são constuídas à base de moléculas de carbono, oxigénio e hidrogénio. Mas dirão, com a tecnologia a evoluir já começa a ser possível perceber a imagem que a pessoa está a imginar olhando apenas para as ondas cerebrais. Mas novamente não se trata de ‘isolar’ fisicamente a inteligencia ou consciencia, que não tem existencia ‘material’.
Olhar para um cerebro a funcionar e perceber os padroes de pensamento, as sensações ou intuições tidas é como acreditar que os episódios da série que estamos a ver são gerados pela placa do computador e que não existiu de facto um argumentista, um realizador e actores que filmaram esses episódios num cenário completamente fora daquilo que é uma placa de computador.
A inteligência artificial parece ser uma fuga para a frente no sentido de que, no futuro, todo o episódio dessa série pode vir a ser gerado por uma inteligência artificial e aí ja se poderá dizer que nada mais existe que não seja a ‘vida’ dos electrões dentro do computador. No entanto, sabemos que essa inteligência artificial não é mais do que uma sofisticada máquina de copiar, que apenas replica e combina uma quantidade astronómica de inputs, uma quantidade que excede a nossa capacidade normal de processar informação. A capacidade da máquina de compreender o significado que esses input têm atribuímos a essa informação continua a ser algo completamente fora. Por exemplo, olhando para milhões de diálogos, a máquina poderá aprender que à pergunta ‘Quanto é 2 + 2?’ deve responder ‘4’. No entanto, porque razão é esta a resposta correcta? A humanidade derivou esta resposta de uma realidade física, ou intui uma álgebra em que esta proposição é verdadeira. O próprio conceito de ‘verdade’ é algo que sai completamente de fora da máquina. Mesmo que seja artilhada com a noção do que é uma álgebra, o processo de intuir o que é uma álgebra constinuaria a ter que ser ‘carregado’ na máquina a partir de fora. E é isto que distingue a máquina do ser humano, o ser humano tem uma faculdade infinita de ultrapassar as suas próprias primitivas, enquanto que a máquina parte de um conjunto limitado de primitivas que sabemos quais são.
No entanto, esta realidade ChatGPT, em que temos uma conversa aparentemente inteligente e quase emocional com uma máquina, que apenas lida com fragmentos sintáticos sem qualquer significado para ela, já remete para ideias da filosofia oriental de que a mente é uma coisa inerte, composta de fragmentos que dão a ilusão de significado. Nesta ideia budista ou védica, toda a construção de ideias, conceitos, imagens, estruturas são uma ilusão. A mente é uma coisa inerte, na qual a consciência pura se projecta e na qual se emaranha. A filosofia oriental tem este conceito de Consciência pura. Infelizmente o paradigma científico-tecnológico-ocidental não tem absolutamente lugar para nada que tenha este lugar de significado, o que a torna profundamente insatisafatória no papel de explicar a experiência humana e dar ao ser humano ferramentas para nela se inserir da forma mais realizadora.
As práticas de meditação budistas são um método científico dirigido à àrea da mente e consciência. Não se estuda literatura fazendo todo o tipo de experiências com canetas e papel, mas sim navegando o mundo das ideias dos diversos autores. Da mesma forma, não é estudando neurónios e electrões que se pode avançar na compreensão da consciência. As primitivas da consciência serão as unidades básicas da atividade mental: pensamentos, memórias, intuições, movimentos das ideias no pano de fundo de consciência imperturbada.
Segundo a sabedoria védica, o observador imutável está presente até durante o sono, mas só com um grande treino se pode ter consciência disto. A boa notícia é que o ‘equipamento’ fisiológico e mental do ser humano lhe permite chegar a esta experiência. Ao contrário do que a interpretação de uma visão colonialista que trata as outras culturas como inferiores sem se esforçar por sair das suas ideias que tem em tão boa conta, Ganesha não foi um elefante de carne e osso que andou a pisar a terra indiana entre o ano X e Y. Ganesha é uma visão que apareceu na mente de seres em profunda meditação como um arquétipo que ‘encarna’ uma série de elementos da experiência humana do universo, e nesse sentido é um ‘deus’.
Sem consciência não há ciência, i.e., a compreensão do universo que pode haver está subordinada à compreensão dos métdoos de investigação e análise operáveis pelo ser humano, à sua validade e abrangência. Por isso a ciência deriva da filosofia. Quem não compreende isto é como alguém que constrói uma casa sem fazer ideia do solo em que o está a fazer.
DEUS:
O auto-denominado ‘céptico’ diz: só acredito em deus se ele der uma prova da sua existência. Ora aceitar que o big bang ocorreu ‘porque sim’ não é cepticismo, é enterrar a cabeça na areia e não querer ver. Ou então um conformismo sábio, se aceitar que a experimentação materialista não tem de facto explicação, mas que podemos ser felizes sem explicação racional para tudo.
Longe vai o tempo do conceito de deus como um senhor de barba branca que vive nas nuvens, ou como um rei medieval que decide quem pune e quem perdoa. Falo de um deus que é apenas algo para além da realidade aparente. Sabemos que os nossos sentidos são limitados, e por isso a percepção da realidade. um bom exeplo disso é o tempo nao conseguimos pensar num conceito de realidade sem tempo. Portanto sabemos que o universo é algo que não conseguimos percepcionar no nosso estado normal de consciência, na racionalidade quotidiana.
Uma coisa é certa, evolução da ciência e o questionamento honesto continua a dar ao homem insights sobre si mesmo, que lhe cabe aprrender para continuar a evoluir.
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